7 de Junho de 2018

Um novo mundo, ali, bastando abrir um livro

Posted in Ler faz crescer às 15:05 por sidneif

Por CLAUDIA VENTURI*

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“A leitura de Molière” (c. 1728), de Jean-Francois de Troy (1679-1752)

Eu nasci nos anos 70, em uma família de quatro filhos, o que hoje poderia ser considerada grande. Embora os meus pais tivessem formação universitária, não muito comum naqueles tempos, e valorizassem muito a nossa educação, eu não me recordo deles lendo para os filhos.

Tenho imagens claras de meu pai fazendo apostas malucas, contando piadas politicamente incorretas e dançando com os filhos ao som de Chico Buarque, Sergio Endrigo e clássicos internacionais que giravam no antigo prato para vinil.

Lembro-me de minha mãe nos salvando de terríveis farpas nos dedos, joelhos ralados e outros ferimentos que insistiam em nos atingir a cada vez que saíamos para brincar na rua, coisa que fazíamos com muito mais frequência do que as crianças de hoje conseguiriam imaginar. Não, o meu pai não era uma boa escolha nesses momentos! Ele era meio “carniceiro” e os machucados doíam muito mais em suas mãos acostumadas com as lidas da terra.

Para os livros eu fui apresentada na escola mesmo. Não sei precisar o momento e nem a minha temática de preferência naquele momento. Li diversos livros e coleções inteiras infantojuvenis que eram sucesso na época. Histórias de aventura e de pequenos espiões passaram a ser as minhas preferidas.

Quando criança eu era uma garota pequena para a minha idade, tímida e com a voz muito baixa. Era normal as pessoas ignorarem a minha presença e interromperem as minhas raras falas, simplesmente por não perceberem que eu havia começado a falar. Rapidamente comecei a guardar as minhas argumentações para mim mesma e para as páginas do meu diário, o qual nominei “Edwin”, em homenagem ao protagonista de um filme de Hollywood que fez muito sucesso naqueles tempos.

O fato é que a leitura me abriu portas para mundos de aventuras e vivencias que eu não conseguiria obter de outras formas. Ler também me deu confiança para falar mais alto e conhecimento para poder transitar em diversas esferas e grupos dentro da sociedade. Quando iniciei o Ensino Médio, por exemplo, já tinha grandes amigos tanto no grupo dos “inteligentes” quanto no dos “bagunceiros”, eu era aceita e respeitada em todos os meios.

A verdade é que a leitura é só uma das chaves do conhecimento. Para usufruir de seus efeitos, é importante que o leitor tenha curiosidade, não daquele tipo que busca informações das vidas alheias, mas aquela que te faz acordar cedo para finalizar a leitura do capítulo sobre o qual se acabou adormecendo na noite anterior.

Outro aspecto importante é a escrita. A leitura não costuma estar completa se não conseguirmos elaborar os pensamentos que ela suscita dentro de nós e sintetizá-los na forma de um novo texto. Pode ser uma frase, pode ser um parágrafo, pode ser um livro inteiro, totalmente novo, desenvolvido a partir dos vislumbres que a leitura nos proporcionou.

Com o tempo tornei-me uma contadora de histórias, daquele tipo que não possui formação e não atua profissionalmente, mas que conta causos e filmes em pequenas rodas de amigos e grupos familiares. Fiquei conhecida por reproduzir as situações com tantos detalhes que precisaria de três horas para contar um filme de duas.

Aos poucos eu aprendi a ler de tudo. Dizem que a variedade de estilos estimula o raciocínio e ajuda a prevenir o Alzheimer. Os livros se tornaram companheiros para todos os momentos, informação, estudo, pesquisa, trabalho ou passatempo. Também continuo escrevendo sempre que posso. Esse hábito me ajuda a fixar conteúdos e regras gramaticais. Então comecei a trabalhar como atriz, professora, tradutora. Todas elas profissões estreitamente relacionadas e fortalecidas com a leitura e com a compreensão de texto. Também tive a oportunidade de viajar para além dos livros e de conhecer, fisicamente, lugares que antes eram visitados apenas pela minha imaginação, nos momentos em que percorria as páginas de boas histórias.

Hoje em dia as tecnologias têm substituído até demais a leitura. Costumamos desperdiçar horas em redes sociais e jogos virtuais, enquanto os nossos livros são esquecidos e empoeirados em prateleiras, como se fossem souvenirs inúteis. E embora existam boas versões de livros em formato digital, a maioria das pessoas limita a sua leitura a mensagens com caracteres contados, figurinhas e abreviações infindáveis, o que, consequentemente, também limita a abrangência da argumentação e do raciocínio.

Embora eu tenha de confessar que também tenho lido com muito menos voracidade do que em outros tempos, continuo considerando os livros meus grandes amigos, companheiros de jornada e de aprendizado. Minha estante abriga mais livros do que tenho conseguido ler, sempre com temas variados. Estão ali, esperando uma brecha em minhas atividades para efetivarem a sua participação efetiva em minha vida. E eu me sinto tranquila sabendo que sempre encontrarei uma boa leitura ao alcance das mãos, assim que eu tiver um tempo ou a simples vontade de encontrar uma nova perspectiva ou um novo mundo, ali, bastando abrir um livro.

*Claudia Venturi, atriz, diretora, professora teatral, tradutpresidente do Círculo Artístico Teodora.

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