11 de Maio de 2018

Sim, a literatura salva

Posted in Ler faz crescer às 15:31 por sidneif

Por ADRIANE GARCIA*

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“Duas mulheres correndo na praia [A corrida]” (1922), de Pablo Picasso (1881-1973)

Minha relação com a leitura nasceu colada com ​duas sensações: o alívio da dor e o encantamento, não nessa ordem, necessariamente. Minha mãe me alfabetizou para me distrair de dores físicas (um problema em meus pés que, sem recursos médicos, ela tratava com fel de boi). Antes disso, o desejo enorme de descobrir o que as letras que eu via nas placas, embalagens, outdoors queriam dizer. Depois, descobri os livros, em uma biblioteca. Lembro-me exatamente quais eram: “Lúcia-já-vou-indo”, de Maria Heloísa Penteado e “Ou isto ou aquilo”, de Cecília Meireles, que foi meu primeiro encontro formal com a poesia.

Descobri que os livros eram um mundo absolutamente luxuoso e rico, diante da realidade economicamente paupérrima em que eu vivia; que neles havia conversas complexas as quais eu não poderia ter com as pessoas de meu entorno. Percebi, com prazer, que eles me causavam alegria, sofrimento, dúvida, esclarecimento, descoberta, que desmentiam ensinamentos que eu julgava por certos.

Nunca parei de ler literatura. Tudo o que me era possível ler, eu lia. A princípio, muito mais literatura brasileira e dos cânones, pois era o que tinha nas bibliotecas escolares. Já adulta, fui procurar outras leituras, tentar sanar a eterna defasagem de todas as maravilhas que ainda não conheço, defasagem que, sei, é impossível de ser sanada.

Noto que muito recentemente chega-nos com mais vigor a discussão necessária e urgente de ampliarmos nosso repertório de leituras quanto àquele/aquela que escreve. Minha geração foi treinada a ler autores homens e brancos, de um modo geral. Hoje busco corrigir isso em minha formação.

É um lugar-comum dizer “a literatura me salvou”, mas eu não tenho como fugir desse lugar-comum. A literatura me salvou.

 

*Adriane Garcia, poeta.  Em 2013 venceu o Prêmio Nacional de Literatura do Paraná, Helena Kolody, categoria poesia, com o livro “Fábulas para adulto perder o sono” (ed. Biblioteca do Paraná, ed. Confraria do Vento). Em 2014, publicou “O nome do mundo (ed. Armazém da Cultura) e em 2015, Só, com peixes (ed. Confraria do Vento). Em 2016 participou da Coleção Leve um Livro, com Embrulhado para viagem. Tem online, pela Revista Vida Secreta, o e-book “Enlouquecer é ganhar mil pássaros”.

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