11 de Maio de 2018

Pássaro ferido

Posted in Ler faz crescer às 15:24 por sidneif

Por STELLA FLORENCE*

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“Vivien Leigh as Blanche Dubois in A Streetcar Named Desire” (1950), de Alfred Kingsley Lawrence (1893-1975)

Você conhece Blanche Dubois? Não? Nesse caso, preciso urgente te apresentar à famosa personagem de Tennessee Williams. A razão é simples: eu sou Blanche, você é Blanche, todas nós somos, em alguma medida, essa mulher que mergulha no desejo como oposição à morte, que foge da luz da realidade tanto quanto da luz física que expõe em seu rosto a desesperadora passagem do tempo, que toma banhos como Lady Macbeth lava as mãos, que sempre dependeu da bondade de estranhos, que vê as coisas como elas deveriam ser e não como são, essa mulher que inventa seus amores, que os veste de encantos e qualidades que eles jamais tiveram, que se dedica tão freneticamente a tal invenção que está à beira de um colapso absoluto.

 Blanche é tão grandiosa que já foi interpretada por Jessica Tandy, Vivien Leigh, Eva Wilma, Maria Fernanda, Ann-Margret, Glenn Close, Leona Cavalli, Natasha Richardson, Cate Blanchett, e recentemente foi trazida à luz de forma emocionante, visceral e estupenda por Maria Luísa Mendonça. Pausa para as palmas. Muitas!

 Antes de continuar é preciso que você conheça a história de “Um bonde chamado desejo”. Atenção: mil spoilers a seguir!

 Stella Kowalski está grávida e perfeitamente adaptada a uma vida sem luxos, mas repleta de desejo, junto ao marido, o cafuçu-tesão Stanley Kowalski, quando sua irmã, a sofisticada e coquete Blanche Dubois, chega falida, de mala e cuia. Os três passam assim a dividir um pedaço de cortiço: intimidade, raiva, orgulho, culpa, medo e desejo de sobra, privacidade nenhuma.

 Esse convívio é demais para Blanche, que acaba por enlouquecer no final. Muitos sustentam que ela perde a razão já instável depois que o cunhado machão a estupra. Mas ela rompe com a realidade de vez quando Mitch, um namorado e pretendente a marido, rompe com ela. Não é, portanto, a brutalidade de Stanley Kowalski que retira sua última esperança de sanidade e amparo, mas sim o abandono de Mitch. Eis o maior dos medos femininos: o abandono.

 Apenas com Mitch ela alcança dois preciosos momentos de contato com a realidade, da qual sistematicamente fugia. No primeiro deles, após um passeio, Blanche, que é viúva, conta a Mitch sobre seu casamento com um jovem gay, o flagrante sexual, o suicídio dele e, deixando de lado qualquer manipulação para seduzi-lo, desabafa que depois de perder o ex-marido, que era seu sol, nunca mais houve outra luz em sua vida que fosse mais forte que uma pobre luz de vela. Mitch então propõe que ambos unam suas solidões e fiquem juntos. É uma cena tocante e repleta de esperança.

 Havia a possibilidade de que uma relação verdadeira fosse construída entre Blanche e Mitch, seriam então dois náufragos que conscientemente se agarrariam um ao outro, reverenciando com serenidade esse modo de sobreviver. Stanley, porém, furioso com Blanche, que costuma expor a diferença de estirpe que há entre ele e as irmãs Dubois, conta a Mitch tudo que descobre sobre o passado dela, o que gera o rompimento.

 O segundo contato de Blanche com a realidade, através de outro encontro com Mitch, se dá quando ele não aparece em seu aniversário e, depois que a festa amarga termina, ele chega bêbado, exigindo vê-la sob a luz, exigindo aquilo que ele não teve todo o verão, querendo chegar às vias de fato. Blanche diz que, sim, teve muitas intimidades com estranhos depois do suicídio do marido. “Eu acho que era pânico, somente pânico, que me levava de um para outro.” Depois, ela pede, “case comigo, Mitch!”, mas ele retira sua última esperança de proteção, ele fecha a última fenda na rocha do mundo na qual ela poderia se abrigar, dizendo “você não é limpa o bastante para entrar na casa da minha mãe”, e é aí, nesse exato ponto, que ela perde de vez o contato com o real. Quando Stanley chega da maternidade na qual deixou Stella internada à espera do bebê, encontra Blanche já em surto, travestida como em um carnaval romântico.

 Havia um pássaro caindo com ambas as asas quebradas: esta é a Blanche que o estilingue-estupro de Stanley atinge. Um pássaro já ferido de morte e em franca queda ao abismo.

 Blanche Dubois é mais do que uma boa personagem: ela é um riquíssimo arquétipo feminino. Eu chegaria mesmo a dizer que Blanche e sua irmã Stella abarcam todos os aspectos do feminino romântico porque, enquanto Blanche escolhe a fantasia, Stella, ao contrário, cavalga e domina o real. E nessa mesma gangorra nos debatemos nós, mulheres modernas. A sorte é que nossos destinos não estão traçados desde o início, como o de Blanche: nós ainda podemos escolher não a fantasia que enlouquece, mas a realidade que estrutura.

 

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Foto: Kriz Knack

*Stella Florence, escritora, autora dos livros “Loucura de Estimação (crônicas de amor e sexo), “Eu me Possuo” (romance sobre superação de um estupro), “Os Indecentes”, “32 – 32 anos, 32 homens, 32 tatuagens”, “Hoje Acordei Gorda”, “O Diabo que te Carregue!”, entre outros. https://www.stellaflorence.net

 

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