20 de Abril de 2018

As palavras, esses bichos

Posted in Ler faz crescer às 15:56 por sidneif

Por PALOMA FRANCA AMORIM*

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“O menino e os bichos” (1925), de Vicente do Rego Monteiro (1899-1970)

O primeiro livro da minha vida foi “A Mulher que Matou os Peixes” da Clarice Lispector. Minha mãe era leitora voraz de Clarice, já investiu num fogo-amigo para fazer com que eu me apaixonasse de primeira pela atividade da leitura. Depois veio Lygia Bojunga Nunes, também com suas prosas de bichos e gentes – acabei tomando gosto por ver os bichos como iguais, porque grande parte da literatura infanto-juvenil faz isso, né? Expande o mundo das pessoas, da fauna e da flora em significados de reveladora humanidade. Assim, posso dizer que sempre gostei mais de livros infantis que tratassem da natureza – as princesas e os heróis eu deixava pra depois.

Em “A Mulher que Matou os Peixes” a Clarice começa pedindo mil desculpas porque é ela mesma a assassina, daí começa a contar para nós leitores como se deu o crime. Entre vários contos de animais, chegamos à história da macaquinha Lisette que eu reli há poucos dias como que em busca de um ato para desafogar o interno. É batata. Termino a última frase desse conto com os olhos embotados de lágrimas. Desde criança tenho esse aperto melancólico na alma e os livros sempre me ajudaram a lidar com ele.

Toda vez que a Clarice se dá conta que a doçura da macaquinha Lisette não é um traço de personalidade e sim a expressão de um adoecimento silencioso e fatal, eu também me deparo com a morte. E se releio essa cena duzentas vezes, são duzentas vezes que eu cruelmente permito que Lisette fique doente e sorumbática. Como leitora me tornei mais do que uma testemunha, fiz-me cúmplice dessa mulher que mata os peixes, a todo instante, mesmo sem querer. Duzentas vezes aprendo a lidar com essa faceta da vida que envolve a contradição da dor e do prazer num mesmo gesto estético.

Ando brigada com Clarice, por razões políticas, mas não recuso sua poética em minha história como leitora.  

Em “A Bolsa Amarela” da Lygia Bojunga, que roubei da minha irmã ainda aos seis anos de idade, a personagem Raquel abriga na bolsa o galo Rei (depois renomeado Afonso) que se torna seu companheiro de aventuras. O Rei tinha um problema, era um galo de rinha, só sabia brigar. Só sabia brigar porque certa vez costuraram em seu pensamento essa ideia fixa.

Pois a imagem de costurarem algo no pensamento também se tornou pra mim uma ideia fixa, e eu podia ver a violência cerzida na cabecinha do galo, linha e agulha pesadas, podia desejá-lo esgarçando aquele pano velho, arrancando pra fora o império do pensamento único para enfim alcançar a liberdade especulativa, pulsão de vida à qual todos nós deveríamos ter acesso.

As palavras sempre foram ferramentas que me ajudaram a interpretar a vida por um prisma que desvia do pragmatismo e das resoluções imediatas que uma sociedade liberal-desenvolvimentista como a nossa impõe. Costumo dizer que meu trabalho como escritora não tem finalidade alguma, apenas sentido. Muito sentido, espero eu.

Aos vinte anos achei Julio Cortázar mencionando seu gato Teodoro W. Adorno no brilhante ensaio “Do Sentimento do Fantástico”. Ao fisgar a atitude do bicho tentando capturar algo invisível no ar, hábito muito comum dos gatos – sabe-se lá por quê, Cortázar desenha com inteligência uma analogia entre o alvo que só Adorno pode ver e a idéia de um ponto vélico pressuposto na literatura fantástica.

Acho sensível como o autor homenageia seu filhote. Nas fotos de Cortázar tem sempre um gatinho por perto, um gatinho e um trompete.

Ele mesmo é um gigante jazz de olhos felinos, não é não?

Chego até a me esquecer da bronquite asmática que trago faz anos no peito quando leio Cortázar. O pelo do gato arde mas o sopro de trompete alivia.

Por fim, estava uma vez em Lisboa, em uma viagem solitária e triste – aos modos de um romance de formação todo próprio – quando fui parar em uma livraria muito bonita chamada “Ler Devagar”. Eram tantos livros em tantas prateleiras que eu fiquei exausta de excitação, mesmo antes de manusear uma única capa. Mas não tinha muito dinheiro então fiz o que faço em todas as livrarias caras que frequento: tento ler o máximo de coisas sem pagar. Falo isso sem culpa. Livro é pra ser lido, lucro é prosa pra outro texto .

Na hora de ir embora pus os olhos no primeiro tomo de uma tal “Autobiografia” de H. Maria Gris (que demorei anos para saber que era uma autora e o primeiro nome era Hibou). Uma edição simples, artesanal, fininha, em preto e branco. Abri aleatoriamente e caí num poema que propiciou uma pequena cura em meu coração (àquelas eras ferido por um apaixonamento em vias de término). Sete euros. Comprei sem pensar muito. Trouxe-o comigo para o meu país.  

Às vezes quando quero – que é melhor do que quando posso – dedico-me a essa “Autobiografia” que parece ter sido feita na medida da minha vida. E mesmo depois dos trinta anos ainda me pego fascinada pela retórica dos bichos, como se aquela menininha de seis jamais tivesse passado daqui de dentro – apesar da insistência de um pretensioso ideal de amadurecimento do intelecto que nos costuram no pensamento fazendo-nos desvalorizar a experiência da infância.

Hibou Maria Gris, daquela vez em Portugal, disse-me assim:

(PIANO)

Quando o coração é enorme

Só um piano e um cão

o podem guardar.

    

Aqui no Brasil não sei se é verdade, mas fico tomada de amor só por ousar achar que, sim, pode ser verdade.     

 

*_MG_0052Paloma Franca Amorim nasceu em Belém do Pará em 1987 e mora em São Paulo desde o ano de 2006. É autora do livro de contos “Eu Preferia Ter Perdido Um Olho” pela Alameda Casa Editorial (2017). Publica semanalmente crônicas no jornal O Liberal, do norte do país. É editora do blog de literatura “Diários Incendiários” e integra a roda de samba de mulheres “Sambadas”. 

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