25 de Outubro de 2016

Memórias de uma infância reinventada

Posted in Sem categoria às 12:59 por sidneif

 (Em homenagem a Manuel de Barros)

Por Leila Lira Peters*

cci14102016

Os avós maternos Elza e Urbano e no colo a prima cinara. Na frente, da esquerda para direita: Leila e os irmãos Moa e Téia.

Nasci numa pequena cidade chamada Ibicaré, rodeada pelas colinas do Vale do Rio do Peixe, no Meio-Oeste catarinense. Essa região foi colonizada por imigrantes alemães e italianos que se estabeleceram em propriedades rurais no início do século 20. Isso foi o que aconteceu com meus avôs maternos que, com sua pequena propriedade agrícola, produziam um pouco de tudo e eram praticamente autossustentáveis.

Meus pais moravam no “centro da cidade”. Com meu irmão e minhas irmãs, frequentei a mesma escola que todas as crianças de lá. Nossa vida era simples: íamos à escola durante um período e, no outro, simplesmente brincávamos (além de ajudar nas tarefas domésticas).

Como no final da década de 70 não havia muitos programas infantis na TV e brinquedo era responsabilidade exclusiva do Papai Noel, passávamos nosso tempo inventando o que fazer, tanto em nossa casa quanto na casa de amigos. Aliás, a rua era uma extensão das nossas casas. Por vezes ficava difícil de terminar a brincadeira de esconde-esconde por causa do número de participantes e da amplitude do espaço utilizado. Porém, andávamos “na linha”, pois todos estavam de olho nas peraltices da “piazada”, e ninguém estava livre de levar um bom “xingão” de um adulto quando bem merecido. Além disso, sabíamos que a notícia logo chegaria aos ouvidos dos pais…

Nossas brincadeiras seguiam o ritmo das estações, acompanhadas dos quatro elementos da natureza: terra, ar, fogo e água[1]. Brincávamos de escavar barrancos fazendo túneis para carrinhos e moradores. Construíamos cidades com pequenos restos de madeira quadrada comprada para acender fogo. Buscávamos sacos de casca de arroz para construir novas cidades e enfeitá-las com flores de Cinamomo, minha árvore preferida, que ficava no quintal da nossa casa. Acabada essa etapa, subíamos na árvore pela cerca de madeira e, de lá de cima, saltávamos no monte formado pelas cascas de arroz, após destruirmos a cidade florida. Nossas atividades e construções não eram perenes, mas não nos importávamos, pois reapareciam em outras formas e texturas.

Brincávamos de casinha em qualquer lugar, inclusive no “pé de ameixa”, minha segunda árvore preferida. Cada galho era uma casa. Na época das frutas, era a glória! Só descíamos no nosso galho, opa! da nossa casa, para fazer a comidinha no foguinho que fazíamos ao pé da árvore. Claro que misturávamos frutas com arroz que, por vezes, queimava. Mas ficava bom. Lá de cima também enviávamos mensagens de aviãozinho de papel e jogávamos paraquedista feito com lenço roubado da mãe.

Minha família possuía uma sapataria, isso nos trazia imensas possibilidades no manuseio das ferramentas para inventar e construir nossos brinquedos. Perna de pau era rápido de fazer, bastava ter a madeira comprida para a haste, pois fabricávamos os pés com as madeirinhas das casinhas. Na máquina de costura, confeccionávamos belos vestidos para as bonecas (também partilhadas entre irmãs).

Claro que o verão era nossa estação preferida. Além dos banhos no rio que passava ao lado de casa, passávamos parte das férias na casa dos meus avôs maternos que tinha, inclusive, um riacho com cachoeira. As possibilidades de brincadeiras se ampliavam ainda mais com os animais do sítio da família e a exploração do imenso “potreiro” para o gado e das trilhas no que havia sobrado da floresta. Nossas ações eram dimensionadas pelo ritmo da natureza, dos materiais encontrados nos arredores e frutos da imaginação. Elas traziam consigo o germe da amplitude e da potencialização corporal.

Facilmente adentrávamos em situações imaginárias motivadas pelos personagens do Sítio do Picapau Amarelo, adaptação para TV da obra de Monteiro Lobato, à qual assistíamos regularmente na saída da escola. Não foram poucas as vezes que tentamos encontrar o Reino das Águas Claras ou que saímos correndo para fugir da Cuca ou do Saci Pererê, por causa de um barulho suspeito, quem vai saber? Lá tínhamos mais árvores com seus balanços para voar. Além de uma imensidão de penas das mais variadas galinhas para construirmos nossas petecas. Eu costumava chegar cedo à escola, para jogar com minha amiga Helenice.

O verão também era época das uvas, e nós tínhamos a grande responsabilidade de pisá-las para fazer suco de uva e vinho – é  claro que o fazíamos depois de tirar bem as “cracas” dos pés. Era igualmente época de “garapa”   de cana, de descascar as peras que se transformariam na boa “chimia”. Mas no inverno também gostávamos de ir ao sítio, pois passávamos metade do tempo nos equilibrando entre os galhos das laranjeiras para colher laranjas do céu, de umbigo, ou vergamota, tangerina… Até hoje sinto esses sabores e cheiros na minha memória.

Mas eu não era diferente das demais crianças da época e meu sonho era ter uma bicicleta. E, para minha esperança, houve um concurso de desenho sobre dia da árvore na nossa escola primária! Depois de rezar todas as noites e de ter feito um desenho interessante, ganhei a tal bicicleta. Deus existe! Com ela, passei meu tempo rodando em todas as partes da cidade (quando não a dividia com minhas irmãs). Eu sabia tudo o que acontecia por lá… as chegadas e as partidas das pessoas…

E uma dessas chegadas foi a de um grupo de trabalhadores que veio para asfaltar a estrada que ligava as cidades da região e se instalar com suas famílias, formando uma pequena comunidade nas mediações da cidade. Com eles, vieram muitas crianças novas que começaram a frequentar a escola, e tivemos a sorte de ampliar nosso repertório lúdico e de brincadeiras, sobretudo cantadas, pois as crianças tinham vindo das mais diversas regiões do Brasil[2]. Começamos a chegar ainda mais cedo à escola para brincar com elas, e o recreio era aproveitado a cada minuto para brincarmos nas imensas rodas que fazíamos no pátio. Esse acesso à diversidade cultural e étnica me propiciou ampliar os horizontes e perceber que havia muito mais a descobrir, para além das pequenas montanhas que delimitavam o espaço da nossa cidade.

Porém, nem tudo é brincadeira. Quando chegamos à idade dos 10-12 anos, trabalhávamos como “brincantes profissionais”, cuidando de crianças menores para ajudar no orçamento familiar. Criança cuidando de criança, o que nem sempre era divertido…

Além das brincadeiras, nos encontrávamos para jogar futebol, caçador e vôlei – este praticado com a bola de futebol e uma corda amarrada onde fosse possível. Um dos locais de encontro era o campo onde, aos domingos, costumavam acontecer os torneios de futebol. Entre um jogo e outro, adentrávamos no campo para tentar jogar um pouco. Ou tentávamos uma vaga no jogo de vôlei que acontecia na quadra ao lado do campo, mas o postulante a jogador precisava ser um pouco maior ou ter alguma habilidade, para conquistar o seu espaço. A equipe que perdia ficava de fora e tentava montar um novo grupo com quem lá estivesse. Todos se revezando. E eu sonhava poder jogar no time de vôlei, mas me contentava com nosso joguinho utilizando a corda…

Com o tempo vieram os jogos na escola e entre escolas da região. Eu não podia faltar e, é claro, ser a capitã das nossas equipes. Eu era fera nos esportes e jogava sempre que podia. Até mesmo no time das gurias mais velhas, que ia de caminhão nos finais de semana para participar dos campeonatos femininos nas comunidades do interior de Ibicaré. No futebol, como eu era pequena e magrinha, ninguém me marcava e eu sempre acabava fazendo gols. Com minhas irmãs e amigas, também começamos a frequentar os campeonatos de vôlei nos finais de semana e quase sempre ganhávamos. Esses campeonatos acabavam nos “matinés” dançantes. Momento de (re)encontrar os paqueras encontrados durante os jogos.

Com a vinda à cidade do professor de Educação Física Eliseu Ferrari, recém- formado pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), montamos uma equipe, começamos a treinar vôlei “de verdade” e a participar de jogos que seriam classificatórios para campeonatos regionais. Bom, nesses jogos nossas chances não eram mais as mesmas e minha relação com eles começou a ser outra.

Passada a adolescência, fui fazer a faculdade de Educação Física em Concórdia e tentar a sorte na equipe de vôlei da Sadia, a melhor da região. Porém, o time já estava completo e esse não seria o meu caminho. Concórdia era uma cidade industrial, cujo esporte visava ao espetáculo, componente da lógica do mercado. Esporte profissional: para ser visto e não praticado. A prática do esporte já não era mais importante que o resultado e o espetáculo. Depois de um ano, me transferi da faculdade privada para a UDESC, que era pública, buscando melhores condições. E cheguei ao local onde eu soube que poderia trabalhar com pesquisa.

Experiência que mais tarde me forneceu subsídios para trabalhar no Colégio de Aplicação da UFSC. Aí começa mais uma nova e importante parte da minha história que culmina no que sou hoje. Parte dela você pode conhecer visitando o site da brinquedoteca por cuja implantação fui responsável. Já pensou o privilégio? Poder brincar no meu trabalho? Que tal vir nos visitar e brincar conosco. http://labrinca.paginas.ufsc.br/

*Leila Lira Peters, doutora em Educação pela Université Paris 13 e coordenadora do Labrinca (Laboratório de Brinquedos do Colégio de Aplicação da UFSC).

[1] Conhecer o trabalho de Gandhy Piorski foi inspirador para o exercício de rememorar minha infância a partir dos quatro elementos. https://catraquinha.catracalivre.com.br/geral/manual-de-brincadeiras/indicacao/brinquedos-da-natureza-entenda-o-brincar-partir-dos-quatro-elementos-naturais/

[2]Tive a consciência disso ao reconhecer e rememorar inúmeras cantigas e brincadeiras de roda que foram vivenciadas no curso Educadores Brincantes, em 2015. Esse curso, idealizado por Antônio Nóbrega, visa formar professores brincantes a partir da expressão e da ampliação do repertório da cultura popular brasileira.

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