6 de Agosto de 2014

Ir em direção ao outro

Posted in Brasil às 18:21 por sidneif

Por POLLY D’AVILA*

tempos fugit

Era um dia quente como inúmeros em minha cidade. Eu estava em uma pequena capela com um homem que tinha acabado de conhecer. Nas minhas mãos, havia um bloco de anotações e uma caneta. Conversávamos como se fôssemos amigos de longa data sobre espiritualidade, história da cidade, arte, arquitetura…

Então, ele parou o que estava dizendo e lançou:

– Existe uma tristeza no seu olhar.

Perplexa perguntei:

– Como assim? Então, ele continuou a falar e não demorou muito para eu compreender do que se tratava.

Nestas últimas semana três grandes escritores brasileiros morreram. Entre eles, o querido Rubem Alves (1933-2014). De modo saudoso, ontem peguei Tempus Fugit da estante. Foi relendo este livro que recordei a cena da capela. Um homem que não me conhecia, em um instante de sensibilidade, captou um aspecto da minha essência. Nos dias atuais, esse tipo de observação é raríssima, já que a rotina fatigou os corações humanos.

Captar a essência de outrem pode ser um sinal de generosidade. É uma lâmina imaginária que retira aspectos da alma. Um ir em direção ao outro. O artista Pablo Picasso (1881-1973), por exemplo, costumava efetuar esse exercício com as pessoas que representava. Em meio as geometrizações cubistas, que na verdade são distorções humanas, ainda é possível visualizar a essência do retratado. Já Amedeo Modigliani (1884-1920), quando não conseguia captar uma essência, decidia-se por pintar de cinza os olhos da pessoa . Era o mistério que pairava no ar.

Do mesma forma, o escritor Rubem Alves captava fenômenos naturais e essências humanas. Basta ler seus textos para perceber que ele fazia parte deste seleto grupo de pessoas. Ou seja, aqueles que visualizam detalhes, minúcias do cotidiano de modo aprofundado, a beleza nas coisas fugidias.

Talvez, um dia, você  comece a perceber que dentro de um recinto, a luz do dia faz os olhos das pessoas brilharem. Ou que uma flor nasceu em meio ao cimento da calçada por onde você passa todos os dias. Ou que aquela criança nos braços da mãe sorriu pra você. Ou que o cabelo ruivo daquele homem tem um tom que você nunca tinha visto antes…

Pensar na beleza efêmera é pensar no que não será mais. Loucura refletir sobre o tempo e sua fugacidade? Talvez. Só sei que o tempo que passa para seres mortais pode soar como morte. E é aí que a beleza apresenta o seu peso e sua tristeza no olhar.

Rubem Alves escreveu que “A vida é aquilo que fazemos com a nossa Morte”. Acrescento que a essência da pessoa é aquilo que ela faz com sua Morte. Pois todas as ações humanas estão imbuídas de tempo e morte. O que seria da arte e da literatura sem essas duas coisas? Milan Kundera também escreveu sobre isso. Como atingir leveza na vida, se o peso do tempo e da morte nos impulsiona para o chão? Para isto a resposta é clara e individual, está no trajeto de cada um.

* Polly D’Avila, artista plástica. O texto, originalmente publicado no Facebook, foi gentilmente concedido pela autora.

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2 comentários »

  1. sandra said,

    Ubaldo Ribeiro, Ariano Suassuna e Rubem Alves… minha admiração aos célebres escritores… Mas confesso que Rubem Alves me encanta!!!

  2. sandra sauer said,

    Ler é crescer! Belo projeto! Obrigada!


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