8 de Outubro de 2013

As mil e uma noites com Sherazade ou dona Capitu

Posted in Ler faz crescer às 16:15 por sidneif

Por MARCELO DONATTI*

"Susana Acusada de Adultério" (1695-1696), de  Antoine Coypel (1661-1722).

“Susana Acusada de Adultério” (1695-1696), de Antoine Coypel (1661-1722).

Ainda menino, cursando a sexta série do que hoje chamam de fundamental II, tive toda a minha atenção de aluno amarrada a uma professora de português. E não falo aqui de um amor platônico entre aluno e sua mestra, o que nada tem de incomum. Falo de um encontro muitíssimo mais raro e profundo. Falo do encontro de um meninote inseguro com uma garota que, mesmo antes de nascer, carregava no olhar uns olhos de ressaca. E isso nem fui eu quem descobriu, mas Machado de Assis.

Bem, como eu dizia, logo no primeiro dia da “minha” sexta série, uma mulher entrou na nossa classe – uma das várias salas de aula de uma escola pública brasileira da década de setenta. Aparentando 50 anos, aquela quase índia com um longíssimo rabo de cavalo grisalho, trazia no rosto, ou melhor, nas maçãs do rosto, todo o excesso de uma maquiagem carregada e malfeita. Os olhos (mistério que ainda hoje mexe com a minha imaginação) nós, os alunos, nunca vimos, pois a professora, por todo o ano daquela sexta série, jamais tirou os enormes óculos escuros que sepultavam, como uma máscara mortuária, boa parte da sua face. Nariz e lábios grossos, essa figura estranha, logo na primeira semana de aula, enfeitiçou-me para sempre. E a bruxaria começou assim:

De costas para a classe, registrando na lousa uma série de conteúdos gramaticais, a professora, “distraidamente”, interrompeu a nossa cópia. Com movimentos largos, pediu licença ao grupo para falar sobre uma leitura que estava fazendo. Segundo ela, um certo livro não saía de sua cabeça. E mesmo ali, diante de uns meninos e de umas meninas que obedientemente copiavam e copiavam o saber para dentro dos seus cadernos, as personagens, Bentinho e Capitolina¹, não paravam de conversar com ela. Pois um rapazinho inseguro, sempre à sombra de sua mãe, apaixonou-se por uma menina que levava nos olhos um mar sem fim e em constante ressaca.

Após esse breve “desabafo”, a professora calou o andamento da história. Sem um mísero detalhe a mais a respeito da trama apresentada, a mestra seguiu com o preenchimento da lousa. E assim a cena se repetiu, dia após dia. Feito um conta-gotas encarnado, aquela mulher – na verdade, o meu primeiro encontro com Sherazade² – deixava escapar um pingo ou dois da história que aos poucos se desenrolava (ou enrolava sem parar).

A situação toda despertou em mim uma aflição de proporções tão asfixiantes que eu não tive outra saída: “Professora, como eu faço pra conseguir esse livro?” E ela, quase monstruosa: “Pra sua idade? O livro que estou lendo não serve pra você!” Humilde, humilhado: “É que eu queria muito ler esse livro! Sei lá, acho que estou gostando da história.” Ela: “Ah, não sei não. Acho que não é pra você.” Eu, súplice: “Por favor, como é que eu faço?” A minha Sherazade: “Bom, se é assim… Vamos ver se a escola dá um jeito.”³

Em suma, só tive o livro nas mãos quase um mês depois da minha “ousadia”. Quando eu quase desistia, num fim de manhã, Sherazade entrou na classe com um pacote, um embrulho feito com papel rústico cor-de-rosa, preso por um barbante ordinário. Ela: “Menino, parece que o seu livro chegou.”

Já com o pacote nas mãos, não tive coragem suficiente para abri-lo. Com Capitu em meus braços, eu me vi personagem de um conto de Clarice Lispector. “… e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. […] Saí andando bem devagar. […] Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo. […] Aquela coisa clandestina… era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim.”

Terminada a sexta série, nunca mais vi ou ouvi falar da Dona Leny (o nome fictício usado pela minha Sherazade), que saiu da escola onde eu estudava.

Hoje, trinta anos depois, continuo sem entender por que Sherazade me escolheu para sultão. Entendo menos ainda por que um garoto, na sexta série, cismou com um livro que não era capaz de entender. Como se vê, o entendimento das coisas não é o meu forte. Entretanto, do fundo da minha alma desde há muito seduzida em uma escola pública brasileira, peço a Deus que a amada Dona Leny tenha direito a toda maquiagem que houver no paraíso. E que as suas histórias durem, pelo menos, mil e uma eternidades, exatamente da forma como ela fez acontecer em mim.

*Marcelo Donatti, escritor, autor do livro de poemas “Boatos do Corpo” (editora patuá). O depoimento acima, que faz parte do citado livro de Donatti,  foi sugerido pelo próprio autor à seção Ler faz crescer.

¹Bentinho e Capitolina (Capitu), personagens centrais de “Dom Casmurro”, livro clássico de Machado de Assis (1839-1908).
²Sherazade, personagem-narradora de “Mil e Uma Noites”, clássica obra de contos da literatura árabe.
³Trechos do conto “Felicidade Clandestina”, presente no livro homônimo de Clarice Lispector (1920-1977).

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