10 de Julho de 2013

Almas de papel e tinta

Posted in Sem categoria às 18:03 por sidneif

Por ELOÍ ELISABETE BOCHECO*

As tecedeiras ou a lenda da aranha (1657), de Diego Velázquez (1660).

“As Tecedeiras ou a Lenda da Aranha” (1657), de Diego Velázquez (1599-1660).

Desde que o descobri, há mais de meio século, o livro tornou-se meu par preferido em todas as estações da vida. Na alegria ou na ruína, não saberia viver sem este companheiro por perto. Refiro-me, especialmente, ao livro literário.

Tomar parte dos destinos inventados – “reais” enquanto transcorre a leitura – acompanhar a travessia dos personagens que se levantam de dentro das palavras é, para mim, um dos grandes baratos da literatura. Por horas, dias, meses, anos, é um gosto segui-los páginas adentro, suas almas expostas, às voltas com acertos, equívocos, aviltezas e tudo o mais que lhes cabe nas linhas e entrelinhas.

É o leitor quem assopra-lhes a brasa encoberta a fim de que se movam e se cumpram como criaturas feitas de palavras. Atrás de si vão deixando marcas indeléveis, algumas à flor das palavras, outras fossilizadas nas entranhas do dito.

Basta o olho encontrar a primeira frase do livro Quincas Borba: “Rubião fitava a ensaeada”, para o sangue literário começar a circular nas veias do personagem. Então é segui-lo da glória à decadência, parando para dar conta do espanto, das máscaras que caem, das epifanias que resultam da leitura desta obra excelsa de Machado de Assis (1839-1908).

Se alguns personagens tornam-se criaturas fictícias de prestígio, é por conta do leitor ( de notório saber ou não) que, ao descobri-los, proclama aos quatro ventos as emoções provadas durante o prazeroso encontro. Não só proclama como, também, volta a visitar às moradias inventadas que lhe são caras.

Em verdade, estas mágicas criaturas – os personagens – mudam-se do livro para as moradias espirituais do leitor e ali permanecem a provocar visões, e a virar e revirar o território íntimo, sem cerimônias: já então são de casa, não precisam pedir licença para nada. Sobem pelas escadas da imaginação, sentam-se à mesa, caminham pelo assoalho, teto, paredes; embrenham-se por regiões que o próprio leitor desconhece.

Dom Quixote¹, por sinal, há quatrocentos anos, profetizou a própria glória e imortalidade: “Ditosa idade e século ditoso, aquele em que hão de sair à luz as minhas famigeradas façanhas, dignas de gravar-se em bronze, esculpir-se em mármores, e pintar-se em painéis para lembranças de todas as idades”. Não sei de profecia que tenha se cumprido tão ao pé da letra como esta. Gravado a sonho, o Cavaleiro da Triste Figura continua a transitar pelas terras sagradas, a espada em riste contra os inimigos da imaginação.

Uma vez estabelecidos nos domínios primaciais, os personagens viram almas e juntam-se à do leitor que fica, assim, povoado de almas e nutrido de recursos simbólicos para a travessia no mundo real, mundo este que oferece, o tempo todo, almas de plástico, sob medida, no varejo e no atacado.

Se o leitor os põem em pé, os personagens não fazem por menos: são bons companheiros em dias de chumbo e treva. Alguns livros têm o dom da cura. Tenho certeza de que Orlando Furioso, de Ludovico Ariosto (1474-1533), e Metamorfoses, de Ovídio (43 a. C. – 17 ou 18 d. C.), pertencem a esta linhagem.

Os livros que realmente importam conseguem, como diz Edmond Rostand (1868-1908), “exaltar com o lirismo, moralizar com a beleza, consolar com a graça e, enfim, dar lições de alma” , ou nas palavras de Barry Lopes: “a tarefa da ficção é nos ajudar com discernimento e nos curar”. E nem importa se os personagens saem dos mosteiros da idade média, do mundo da cavalaria ou se são contemporâneos do leitor. O que importa é que sejam movidos à seiva artística.

Um amigo, que já partiu deste mundo, me disse uma vez que “para a prática da leitura, a vida é muito curta”, querendo dizer que uma vida não chega para ler tudo que queremos e, principalmente, reler nossos autores prediletos, pois, como já foi dito, e eu repito, há livros que nunca terminamos de ler, porque são inesgotáveis, como uma fonte eterna.

*Eloí Elisabete Bocheco, escritora.
http://wwwsaladeferramentas.blogspot.com.br 
 
¹Dom Quixote, personagem do clássico livro homônimo do escritor espanhol Miguel de Cervantes (1547-1616).
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