16 de Abril de 2013

A ideia de fazer arte

Posted in Ler faz crescer às 17:00 por sidneif

Por KATHERINE FUNKE*

poemasartesComecei a ler livros ainda criança, sentada manhã após manhã na cadeira de balanço que ficava em um jardim interno da casa dos meus pais.

Era um lugar bem silencioso, apartado do cotidiano, com um enorme céu aberto e umas poucas plantas. Eu me perdia em contemplações ali às vezes, mas na maior parte do tempo lia e balançava, balançava e lia – e me deixava embalar pelo que lia.

Lembro de alguns títulos que marcaram as primeiras descobertas: da coleção completa do Sítio do Pica-Pau Amarelo, de Monteiro Lobato (1882-1948); das muitas aventuras e viagens de Júlio Verne (1828-1925); da série autobiográfica de Laura Ingalls Wilder (1867-1957); de Pollyanna e Pollyanna Moça, de Eleanor Porter (1868-1920); de Júlia dos Sete aos Dezessete, de Irene Hunt (1907-2001); e, de que mais?… Pedro Bandeira também estava lá, tenho certeza…

Ainda antes destes – que nem me pertenciam, eram dos irmãos mais velhos – houve muitos outros livros, dos gêneros infantil e infanto-juvenil. Eu amava, sobretudo, os gibis com histórias de Pato Donald, Zé Carioca, Mickey e Pateta. Sim, eu amava as histórias do Pateta.

De criança pequenina, guardo uma mostra das aventuras do Rei Rolo, uma narrativa engraçada – visual, praticamente sem palavras – de David McKee.

Franz Kafka (1883-1924), Ernst Hemingway (1899-1961), Érico Veríssimo (1905-1975), Charles Dickens (1812-1970) e João Ubaldo Ribeiro marcaram minha juventude de um modo bastante precoce.

Para mim, lê-los era um ato um pouco subversivo, pois ficavam nas estantes dos livros adultos, os títulos da minha mãe e do meu pai…

E quando eu pegava um Sartre (Jean-Paul, 1905-1980) ou um Saint-Exupèry (Antoine de, 1900-1944) e levava para ler na cama, com a luz do abajur reduzida por uma camiseta, então!… Aí, eu era a própria protagonista de um outro livro que amei na minha juventude, este bem mais bobo, Mulherzinhas, de Louisa May Alcott (1832-1888), sabem, aquele que virou filme, com a Wynonna Ryder no meu papel, digo, no de Jo?…

Também havia ali um pouco de Oscar Wilde (1854-1900), Virginia Woolf (1882-1941), Clarice Lispector (1920-1977) e algumas antologias esparsas com muitos contos de autores reunidos de modo quase aleatório e impressos em papel-jornal; publicações bem baratas lá pelos anos de 1960 a 1975, época em que minha mãe os comprava em bancas de jornais e revistas.

Eu amava de um modo especial esses libretos de contos tão simples e tão leves de carregar. Eles me traziam histórias de William Shakespeare (1564-1616), de Katherine Mansfield (1888-1923), de Gustave Flaubert (1821-1880), de Anton Tchekhov (1860-1904), de Nicolai Gogol (1809-1852)  e de outros grandes autores da literatura mundial.

Gostava tanto desses contos, tanto, tanto, que nunca dei bola para o Fausto, de Goethe (1749-1832), ou para os tantos volumes de Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust (1871-1922). Eu sei – um dia os lerei – mas por ora ainda permanecem distantes de mim, pelas estantes da casa da minha mãe e todas as outras estantes…

Foi mais ou menos por aí que a literatura me pegou de vez e decidi que não queria ser outra coisa da vida, que não escritora. Nas escolas e, depois, na faculdade onde cursei jornalismo, pude conhecer mais de poesia – Paulo Leminski (1944-1989), Waly Salomão (1943-2003), Arnaldo Antunes, Fernando Pessoa (1888-1935) e Charles Baudelaire (1821-1867) são meus amigos desde o “ginásio” (equivalente ao quinto ou sexto ano do atual ensino fundamental).

Conheci fora de casa, também, obras não exatamente fáceis de classificar, como as cartas de Van Gogh (Vincent, 1853-1890) a seu irmão Theo (Theodorus Van Gogh, 1857-1891)  ou uma biografia de Marcel Duchamp (1887-1968), ou um ensaio de Arthur Schopenhauer (1788-1860), por exemplo – todos peças de algum modo literárias, mas mais do que isso; livros que me deixaram apaixonada por algo ainda maior do que o desejo de me expressar com palavras – deixaram-me  fascinadas pela ideia de fazer arte.

Hoje em dia estou promovendo uma espécie de clube da leitura em Florianópolis, ao mesmo tempo em que escrevo um romance intitulado Viagens de Walter. É um projeto que estou desenvolvendo com apoio da bolsa Funarte¹ de Interações Estéticas – Residências Artísticas em Pontos de Cultura.

Essa espécie de clube da leitura, na verdade, são encontros em que conversamos sobre livros, sempre aos sábados de tarde, na biblioteca Barca dos Livros², localizada no LIC³ , na capital catarinense (mais precisamente no bairro da Lagoa da Conceição). Também há saraus realizados dentro da embarcação da Barca dos Livros, em um passeio na Lagoa da Conceição.

Na lista de leituras do Viagens na Barca, sugiro aos participantes especialmente mais atenção à literatura contemporânea. Trago títulos de autores como Daniel Galera, Verônica Stigger, Angélica Freitas, Joca Reiners Terron, Luiz Bras, Reginaldo Pujol Filho, Paloma Vidal, Ondjaki, Noemi Jaffe, entre outros.

O projeto tem sido bem bacana e atraído um público interessado em conversar sobre livros e também em se atualizar, o que me deixa bem contente e esperançosa sobre o futuro da literatura. Convido os leitores deste blog a saberem mais, clicando neste link: http://viagensnabarca.wordpress.com .

*Katherine Funke, jornalista e  escritora.

 
 
¹Fundação Nacional de Artes, instituição (vinculada ao Ministério da Cultura) de  incentivo à cultura.
²Biblioteca comunitária (link à direita, no menu Biscoito fino) mantida pela “Sociedade Amantes da Leitura”. 
³Lagoa Iate Clube, entidade privada de recreação e de atividades culturais.
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1 Comentário »

  1. […] 2. um blogueiro chamado Sidnei Manoel Ferreira, que não conheço, convidou-me a relatar minha experiência como leitora, para sua Tabacaria. Então, tá aqui o meu depoimento. […]


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