5 de Julho de 2012

Sete teses sobre a leitura

Posted in Ler faz crescer às 15:39 por sidneif

Por MIGUEL SANCHES NETO*

1.

A nossa relação com o livro pode ser bem variada. Um colecionador de raridades o vê como algo concreto, com uma existência física definida. Esta é a mesma ótica de um livreiro, uma vez que o fim de seu envolvimento é o lucro. Já para um leitor de literatura, o livro transcende a sua limitação física e passa a ser parte integrante do imaginário humano. Da leitura fica um resíduo que já não é mais o livro, mas algo híbrido e sintético que, em linhas gerais, o contém.

2.

O colecionador pode (e deve) ser um leitor. Mas este não precisa ser, necessariamente, um colecionador. Para ele, o possuir concretamente é menos importante do que internalizar a essência abstrata da obra. O valor de sua biblioteca (uma biblioteca interior, caoticamente ordenada; ou seja, a sua memória) é de ordem espiritual.

3.

Se ler é, em certo sentido, esquecer, como disse Fernando Pessoa, o ato da leitura nunca pode ser encarado como uma forma, mesmo que simbólica, de possuir o livro. Por isso nunca saberemos precisar o que lemos ao longo de nossa vida. Não obstante, carregamos um repertório de conhecimentos, na maioria das vezes em estado de inconsciência, que se manifesta indiretamente em nossas atitudes e em nossa visão de mundo.

4.

Ao nos dedicarmos à leitura de novas obras, nosso comportamento e nossas concepções tomam rumos muito diferentes, desviando-nos do caminho que todos seguem. Só acredito em pessoas que se contradizem, porque estão em progresso, em crescimento. Aqueles que mantêm uma trajetória coerente me são suspeitas. O leitor autêntico é este ser que se move, que não se torna previsível.

5.

A leitura é uma tarefa que ultrapassa o período de vida que nos foi destinado. Não existe, pois, o leitor profissional. Ninguém (a não ser o charlatão) pode dizer que já leu tudo o que tinha para ser lido, e que só lhe resta gozar a aposentadoria. O verdadeiro leitor não se aposenta. Ao contrário, é muitas vezes na aposentadoria que nasce a sede imorredoura da leitura.

6.

Há ainda um componente fundamental na relação entre o leitor e a obra. Refiro-me à palavra. Encontrei num verso de “Blanco”, poema de Octavio Paz, uma metáfora para a palavra escrita. Para o poeta mexicano, a palavra é “la enterrada con los ojos abiertos”. Ela teria, então, um par de olhos que se mantém escancarado, não obstante a sua condição de enterrado. A figura do leitor, a partir desta imagem, seria a de um arrombador de tumbas. Os livros nas estantes formariam um cemitério constituído por milhões de enterrados vivos que nós, leitores, podemos salvar – desenterrando-os das covas em que jazem e os incorporando à nossa vida.

7.

Uma outra idéia decorrente desta imagem é a da constante vigília em que vivem as palavras. O livro guarda a essência viva da humanidade. Ele é um mar de olhos que espia por todos os lados. Em última análise, nós não o lemos, e sim somos lidos por ele. Talvez seja o medo de se ver desmascarada que faça com que grande parte da humanidade não se dedique à leitura.

*Miguel Sanches Neto, escritor e crítico literário.

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