13 de Abril de 2012

Ficção científica: clímax da literatura

Posted in Ler faz crescer às 10:36 por sidneif

Por BRUNO LEAL PASTOR DE CARVALHO*

O primeiro livro que recordo ter lido foi o clássico infantil “Pinote, o fracote e Janjão, o fortão”, de Fernanda Lopes de Almeida.  Isso deve ter sido logo no início de minha alfabetização, por volta de 1988. Desde então, eu não desgrudei mais dos livros. Leio em casa, no ônibus, no metrô, na fila da banco (remédio infalível para evitar o estresse das contas!), na sala de espera da emergência hospitalar e em qualquer outro lugar que haja um filete de luz. Nesses mais de vinte anos como leitor, já li muita coisa. Mas um tipo de leitura me cativa um pouco mais do que qualquer outra: a ficção científica.

Robôs com inteligência artificial, zumbis comedores de cérebros, viagens no tempo, sociedades futurísticas e universos paralelos. Para muitos, isso tudo não passa de uma simples fantasia ou, no máximo, entretenimento raso para as horas de tédio. Para mim, nada mais enganoso. A ficção científica é, por excelência, o lugar de vanguarda da literatura. É o lugar do experimental, dos sonhos mais fantásticos, do ousado, o lugar do “dedo na ferida” e o produto mais profundo da imaginação dos homens. Digo para muita gente: já li livros de ficção científica que explicam e problematizam conceitos, teorias e fatos de forma muito mais brilhante e elegante do que muita literatura acadêmica.

Eu poderia citar dezenas de livros de ficção científica que me fizeram pensar e muito. Livros que  provocaram revolta, raiva e amor, livros, enfim, que produziram choro e risos descontrolados. Vou me deter em três, aqueles que formam a minha “trilogia” preferida. E, falando em ficção cientifica, nada melhor do que uma boa trilogia, não é mesmo?

O primeiro é  “A Invenção de Morel”, do argentino Afonso Bioy Casares. Publicado em 1940, o livro conta a saga de um homem que, condenado por motivos políticos, foge para uma remota ilha do Pacífico, onde se depara com uma epidemia letal e com habitantes misteriosos. O livro, que mal ultrapassa as cem páginas, é simplesmente uma das maiores discussões que já conheci dentro do campo da comunicação social. Casares discute conceitos como representação, imagem, ilusão, liberdade e outros conceitos que deram trabalho a autores consagrados, como Platão e Foucault.

O segundo livro de minha trilogia é “A Estrada”, do americano Cormac McCarthy. Publicado em 2006, o livro, que foi adaptado para o cinema, conta a história solitária e honesta de um pai e seu filho que cruzam os Estados Unidos, de costa a costa, em um mundo pós-apocalipse, em busca de segurança. No caminho, enfrentam seus medos, uma solidão esmagadora e ameaças mais perigosas que a radiação que contamina a água e o ar: os homens. “Pai e filho, cada um o mundo do outro”, diz o autor. Quatro anos depois de ter lido esse livro, ainda me pego pensando nele.

Por fim, o terceiro e último livro: “Eu sou a Lenda”, do americano Richard Matheson. Publicado em 1954, o livro conta a história de um mundo devastado por uma epidemia que transformou a raça humana em uma subespécie agressiva, meio morta, meio viva. No centro da história, um homem atormentado por ser o “último homem da face da terra”. O final, mais que surpreendente, revira muita obra de antropologia pelo avesso, ao deslocar leitor dentro a partir de determinados “lugares sociais”. Uma leitura perturbadora, base para os bons filmes de zumbis que seriam produzidos na segunda metade do século XX.

É isso. Se eu fosse para uma fila de banco, sala de espera ou simplesmente uma ilha deserta, levaria esses três livros como companheiros. Eu teria nas minhas mãos três universos sem fim.

*Bruno Leal Pastor de Carvalho, historiador e jornalista, doutorando em História Social e editor da rede social Café História .

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