1 de Dezembro de 2011

A antirrevelação

Posted in Ler faz crescer às 10:49 por sidneif

 Por NOEMI JAFFE*

Quando li “José e seus irmãos”, de Thomas Mann, tive uma espécie de antirrevelação, se é que se pode chamar assim. No romance, Thomas Mann fala sobre a dor de Jacó por ter perdido seu filho preferido, José. Jacó se desfaz em pranto e lança imprecações contra Deus, a quem diz odiar por tê-lo subtraído de quem mais amava. Seu criado o recrimina, dizendo-lhe que não se podiam proferir palavras como aquelas contra Deus, que Deus sabia o que fazia e que seus caminhos eram impenetráveis pelos homens. Jacó então responde ao criado, dizendo não aceitar esse Deus cujas razões são desconhecidas. Que o seu Deus deveria amá-lo ainda mais por Jacó odiá-lo; ficar acima das dores humanas, segundo ele, era função divina. O possível, para os homens, é mesmo odiar, ser fraco, implorar por proteção e compreensão. Jacó não queria ser como Deus; ele precisava de Deus e ele lhe faltava.

Esse trecho do livro, para mim, foi como ter rompido algum grilhão que me prendia a uma imagem de um Deus opressivo, perseguidor. Me senti livre para formar, dentro de mim, a ideia que posso e quero ter daquilo em que acredito. Achei que nenhuma outra teorização ou pensamento sobre Deus poderia ser tão profundo e belo como esse, expresso literariamente no romance de Thomas Mann.

* Noemi Jaffe, professora, escritora, doutora em literatura brasileira pela Universidade de São Paulo (USP) e responsável pelo blog Nada está acontecendo.

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