13 de Novembro de 2011

De homens, livros e bagunça

Posted in Ler faz crescer às 10:14 por sidneif

Por ALEXANDRA MORAES*

O meu primeiro livro preferido foi “Flicts”, do Ziraldo, que ganhei da minha madrinha quando comecei a ler direitinho, com seis anos. As páginas muito coloridas que narravam as aflições daquela cor sem lugar no mundo me são muito queridas até hoje.

Alimentei o gosto que surgiu da leitura com livros da escola, revistas e jornais. Tive a sorte de passar parte da infância numa casa em que havia muito o que ler –meu avô assinava dois jornais, revistas e era dono de uma biblioteca misturada com marcenaria, seus passatempos, que chamávamos de “quarto da bagunça”. Ali os netos podiam se aventurar com serrotes, martelos e pregos, brincar de batucar na máquina de escrever ou em calculadoras ruidosas, descobrir as cores de mapas antigos, pesquisar na “Barsa” e desenhar com giz na lateral de um arquivo de aço muito escuro, nossa lousa improvisada. Perdi meu avô pouco antes de completar sete anos, mas o quarto da bagunça sobreviveu até o início da minha adolescência, ainda que sem a marcenaria e sem a presença acolhedora daquela figura.

Aos 12, resolvi me aventurar por livros que ainda não haviam aparecido na lista da escola. Peguei “A Moreninha”, de Joaquim Manuel de Macedo, e vi alguma graça ali. Segui no romantismo com “O Guarani”, de José de Alencar, e “Helena”, de Machado de Assis. Dali, parti para o Machado realista, consegui desembaralhar as letras do nome de Kierkegaard e pouco depois conheci algumas das minhas grandes paixões literárias. Gostava de comprar em sebos e de estar sempre com um livro, num certo pedantismo adolescente que, no fim das contas, me fez mais bem do que mal.

Fui acumulando livros por pouco mais de uma década e acabei criando uma versão reduzida –mas eloquente– do quarto da bagunça. Me desfiz de boa parte deles quando o pragmatismo teve de se impor à zoeira. Fiquei com um quinto de tudo o que tinha, mas com tudo o que me parecia essencial de verdade –Machado, Eça, uns russos, uns gregos, tirinhas do “Niquel Náusea” e o “Flicts”, aquilo que valeria reler de tempos em tempos pra testar as mesmas letras sob olhos que, apesar de também serem os mesmos, talvez se prendessem a outras nuances e nódoas. E comprei um Kindle, com a intenção de poder reaver parte dos outros quatro quintos se bater saudade.

*Alexandra Moraes, jornalista e autora das tiras de O Pintinho (opintinho.com.br).

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