30 de Agosto de 2011

Chaves e janelas

Posted in Ler faz crescer às 10:57 por sidneif

Por ROBERTO DA SILVA*

Estando vivendo em um abrigo público na cidade de Sorocaba desde os 2,5 anos de idade, ainda no modelo das grandes instituições, com cerca de 1.500 crianças e adolescentes de 0 a 18 anos de idade, frequentei a antiga escola primária dentro do próprio abrigo, dentro do modelo conhecido como lar Escola. Mas aprendi a ler antes de entrar na escola. O abrigo ficava situado em uma zona rural, onde havia o grande lixão da cidade. Ia ao lixão não para procurar comida, roupas ou utensílios e sim brinquedos ou coisas que pudesse transformar em brinquedos. Ali achei os primeiros gibis, não exatamente como são hoje. Em 1963-1969 eram muito populares O Fantasma, Capitão América, Zorro, Recruta Zero, Tarzan, Cavaleiro Negro, Seleções Ridger Digest, Mandrake e tantos outros, mas o fascínio mesmo era pelas fotonovelas italianas e gibis de faroeste como Texas e Zagor. Eu procurava no lixão estes gibis como colecionadores procuram hoje estas preciosidades: foi neles e com eles que aprendi a ler antes mesmo de estar matriculado na escola. Não me lembro que alguém tenha me ajudado a decifrar as primeiras palavras. Me lembro sim e muito bem dos diversos meninos que encenavam comigo as cenas de bang bang, os nomes que davamos aos cavalos dos bandidos e os apelidos engraçados que colocávamos neles.

O aprendizado precoce da leitura me colocava em vantagem nas classes de 1ª a 4ª séries do antigo primário, tirava as melhores notas em redação, apesar de sempre ser o aluno mais bagunceiro e de ser até mesmo expulso da escola por isso. Da 1ª a 4ª série ganhei todos os concursos de redação – da Árvore, do Índio, do Dia do Sabiá Lanjeira – este entregue pelo então governador Laudo Natel, mas nada disso impediu que eu fosse transferido para o temido RPM (Recolhimento Provisório de Menores), em 1969, a primeira unidade de acolhimento de menores infratores em São Paulo.

Já na FEBEM de São Paulo, um dia fui designado para trabalhar como estafeta (office boy) no gabinete do Juiz de Menores da época e ali, procurando registros sobre minha própria história de vida e de minha família, pela primeira vez tomei contato com o texto jurídico, registrado na forma de ficha de arquivo, prontuário, processo, sentença, etc. Para minha indignação descobri nestes documentos que ali estavam registrados todos os fatos da minha vida, que tinha pai e mãe, que tinha irmãos e que os profissionais que faziam estes registros sabiam tudo sobre mim e minha família, mas escreviam as coisas de tal modo e em uma linguagem tão estranha que eu sozinho não conseguia decifrar.

Depois da maioridade, quando tive que viver por quase cinco anos nas ruas de São Paulo, exacerbei o gosto e a habilidade pela leitura, lendo praticamente tudo o que podia ter acesso nas ruas, nas casas onde dormia, nos xadrezes das delegacias. Nunca desprezei uma página de jornal mesmo que fosse de proclamas, de editais ou de classificados, um livro sujo e rasgado ou uma revista feminina porque o que me interessava não era a informação textual e sim a lógica por trás dos textos.

Quando fui para ficar definitivamente na Casa de Detenção de São Paulo, encontrei no meu prontuário e de outros presos a mesma linguagem cifrada dos tempos de abrigos, Febens e Juizado de Menores. Apesar de todos os meus pedidos de explicações a funcionários, advogados, promotores e juízes, a interpretação que eles davam aos textos escritos eram sempre contra mim: culpado, sentenciado, condenado, perigoso, sem futuro. Decidi eu mesmo buscar a interpretação destes códigos escritos e assim enveredei pela leitura das leis, ciências políticas, sociologia, filosofia e de tudo o que fosse útil para eu entender a estruturada da sociedade, o espírito das leis e o funcionamento do sistema de Justiça. Li todos os 53 volumes da Coleção Os Pensadores e escrevi a centenas de editoras, que me mandavam livros de todos os gêneros.

Algumas obras foram chaves para entender a lei, a sociedade, o Estado e o governo. Outras foram janelas por meio das quais eu fugia da realidade dura e cruel do cárcere para descortinar novas possibilidades de vida, de prazer e de realizações. Especialmente com a literatura mística, filosófica e antroposófica, descobri que o Estado tinha o controle do meu corpo , mas não poderia nunca ter o controle da minha mente.

Hoje leio menos, mais seletivamente e procuro escrever mais, até por dever de ofício, mas desde que meus filhos nasceram coloquei ao alcance deles uma variada biblioteca de 40 livros de vários gêneros. No início não me importava o que fizessem com os livros (tenho uma cópia de cada um deles) e hoje, aos 9 e 7 anos respectivamente, já consigo ver neles o prazer da descoberta, a curiosidade e, o que é mais gostoso, as brincadeiras que fazem com as palavras, os personagens, os enredos e até mesmo com os materiais de que são feitos os livros.

*Roberto da Silva, Professor livre docente da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo.

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