20 de Dezembro de 2010

Leitura sem torturas, sem tonturas

Posted in Ler faz crescer às 13:35 por sidneif

Por GIZELLE KAMINSKI CORSO*

Sou da geração do mimeógrafo e da máquina de datilografia. Eu só li Monteiro Lobato depois de ter 1 metro e 60 cm de altura. Antes disso, eu só tinha ouvido falar da Cuca e da Emília ouvindo as conversas da minha irmã mais velha, Jezabel, com a minha prima Silvana. Morria de inveja por não ter nascido na década de 70 e, portanto, não ter conhecido aquele Sítio pela Televisão de que tanto falavam. Mais tarde, é claro, fui descobrir que poderia reviver o Sítio lendo todos os livros do Lobato. Pura nostalgia. Em compensação, com menos de 1 metro e 60 de altura eu conheci O joelho Juvenal e o Ziraldo, Maria-vai-com-as-outras, da Sylvia Orthof, obras que estão tatuadas na minha memória. Veio voando também a nariguda e feia Bruxa Onilda, que lançou um feitiço para que eu devorasse suas histórias. Mas houve uma obra que me deu água na boca, e me dá até hoje: A patota da pipoca, de Lucia Pimentel Góes. É claro que eu não me lembrava do título, nem sonhava quem era a autora, só lembrava que a palavra PIPOCA fazia parte do título. A parte mais gostosa. O oráculo do Google ajudou-me a desvendar esse mistério que eu carregava por tantos anos. Esse livro tem uma história engraçada. Não que a história do livro seja assim, mas o que é engraçado é o que o livro fazia comigo. Eu cheguei a pegá-lo mais de três vezes na biblioteca porque gostava de lê-lo comendo pipoca. Na primeira vez que o peguei, era de manhã, perto do almoço, e fiquei com uma vontade danada de comer pipoca, mas tinha que comer o feijão com arroz meio a contragosto. Almocei, mas fiquei com a vontade de comer pipoca. O relógio bateu duas horas da tarde. Panela no fogo, azeite e muiiiiita pipoca. Li a A patota da pipoca comendo pipoca.

Na 7ª. Série a menina voraz leitora do primário transformou-se em uma inventadeira de finais de histórias por ler os livros pela metade. Em seminário de leitura, numa aula de português, quem era a professora era a minha mãe, Sofia, um colega e eu estávamos compartilhando com a turma o livro Prova de Fogo, do Pedro Bandeira. De repente a contradição: “Gizelle, a história do livro não é bem assim!”. Tímida como era (e acho que ainda sou), fiquei um pimentão; olhei firme para ele e para a minha mãe e, meio sem graça, falei: “Acho que você não leu direito, mas é bem assim mesmo!”.

Depois dessa situação, passei a pegar livros bem diferentes dos colegas para os seminários, mas continuei me esquivando da leitura. Um dia, decidida a fazer as pazes com ela [a leitura],  aos 12 anos, peguei O Ateneu, do Raul Pompéia, e sentei no banco da escola, antes de começar a aula. Li a primeira página. Bateu o sinal. Fechei o livro e só o abri novamente muitos anos depois…

No Ensino Médio continuava lendo pouco… A não-leitora permanecia em cena. Aí, um dia, fiquei sabendo que o Professor Abele Casarotto iria dar aula de literatura no colégio onde eu estudava. Era uma pessoa que eu conhecia desde criança; tinha ido várias vezes lá em casa, e eu o achava bem brincalhão e divertido, mas em sala de aula, era muito sério.

Numa manhã de aula ensolarada, Profe Abele trouxe para a aula uma menina de nome bonito e diferente, chamada Clarissa. Disse que quem falava muito bem dela era um autor gaúcho chamado Erico Veríssimo. Fiquei tão curiosa, que não resisti: à tarde, corri para a Biblioteca Municipal atrás da tal de Clarissa. Acordei para a leitura. Minha vida começou a ter Clarissa, Um certo Capitão Rodrigo, Musica ao longe, Olhai os lírios do campo, A volta do gato preto. Profe Abele, a pedidos da mãe, e sabendo de minha paixão descontrolada na época por Erico Veríssimo, em suas viagens, ia a sebos e livrarias e trazia-me vários exemplares de suas obras. Lia tanto quanto respirava. Saboreava livros de vários autores, formatos e títulos.

A paixão pela literatura veio de uma infância vivida entre árvores, bonecas, jogos, gatos, brincadeiras, violão, teclado, gaita e livros. Apareceu naturalmente, sem imposições, sem restrições. Brincar de escolinha e ensinar os gatos a ler foram apenas sinais de que ali estava nascendo mais uma professora. Pequena, marota e com dentes de leite, mal sabia ela que, no futuro, seria disciplinada pela literatura. Em todas as encruzilhadas, a literatura foi responsável por disciplinar a minha vida.

*Gizelle Kaminski Corso, doutoranda em Literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

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