4 de Fevereiro de 2011
O canto do Egito
Afigura-se questão de tempo a saída de Hosni Mubarak da presidência do Egito. Os egípcios cada vez mais engrossam o discurso de mudanças. Mesmo com a artimanha covarde do governo de incitar a violência, a população mantém o desejo de ver o país livre dos despotismo.
Estados Unidos e Europa, que sempre fizeram vista grossa à ditadura egípicia, estão a exigir mudanças no governo egípcio. Começaram, é verdade, com discurso tomado de platitudes, não queriam cutucar o aliado de sempre.
A lentidão das lideranças mundiais também provinha da possibilidade de ascensão da Irmandade Islâmica e risco, por consequência, de um governo teocrático. Temor, no momento, infundado. Os egípicios parecem mais preocupados em recuperar sua dignidade, ter um país justo.
Se tiverem bons ouvidos, americanos, europeus e qualquer país do mundo vai entender a manifestação no Egito ( e também noutros países que já têm ou ensaiam protestos contra diatadores) como um canto. Um canto a entoar que o melhor aliado segue preceitos democráticos, não ignora as necessidades de seu povo.
4 de Maio de 2010
A vítima e o predador
Partidários do governo cubano rechaçam as das Damas de Branco, grupo de mulheres que defendem os diretos humanos dos prisioneiros políticos. Um destes morrera após greve de fome. A política externa do Brasil reduz tudo a uma questão local ( o episódio ‘Honduras” foi de caráter universal, de causar preocupação aos marcianos).
O mundo do bom senso anda intrigado com o programa nuclear iraniano. Brasília abraça Teerã. Faz do presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad, aquele que consegue a proeza de ignorar o Holocausto, uma vítima. É preciso entender e respeitar Teerã, companheiros.
Não, isso não é papel de um país ultimamente considerado nova liderança mundial. Afigura-se mais uma escaramuça particular contra os Estados Unidos. É o famoso nós (as vítimas) contra o império ( o predador). Todas as nossas mazelas nascem da perversão americana.
Já passou da hora de abandonar o vetusto (e conveniente) discurso “todos contra os vilões ianques”.
Sim, os Estados Unidos criticam Havana e Teerã ao mesmo tempo que fazem vista grossa à ditadura de países aliados. Todavia, sermos complacentes com os excessos do castrismo e de governos semelhantes não nos diferencia dos americanos.
Mais absurdo ainda é embarcar na cantilena maniqueísta do pensamento único, bandeira típica de regimes autoritários – Seja de esquerda ou de direita ( se ainda cabe esses conceitos).
O Brasil que quer ser líder é refratário a tais regimes. Aponta as contradições de Washington, mas não avaliza qualquer ato de desrespeito aos direitos humanos. Muito menos aceita o cerceio da liberdade de expressão.
Liberdade de expressão fomenta a igualdade e repele déspotas.
22 de Janeiro de 2010
Haiti, o país que não existe
Furações e terremotos castigam os haitianos. A ambição do homem também.
O Haiti foi pioneiro ao ter libertado seus escravos e conquistado sua independência. Inspiração para outros povos da América. Uma ameaça ao sistema escravocrata. O país caribenho pagou caro por isso.
A forte agricultura foi boicotada pelo mercado internacional. A título de indenização, a França (Metrópole) arruinou os cofres do país.
A piorar sua penúria, o Haiti conviveu ao longo dos anos com intervenções dos Estados Unidos, sucessivos golpes do estado e mergulhou em sangue com a ditadura da família Duvalier – Francois (Papa Doc) e Jean-Claude (Baby Doc) apresentaram o inferno aos seus conterrâneos.
O corolário é um país sem economia, sem instituições democráticas sólidas. O governo não existe de fato. O que reina em solo haitiano é a trágica combinação de miséria e violência.
Agora, o recente terremoto faz o mundo voltar os olhos ao Haiti. Por ora, a primeira grande missão é aplacar a fome dos haitianos. Mas o futuro precisa ser pensado. Reconstruir o país significa a restauração das instituições democráticas. O Executivo, o Legislativo e o Judiciário precisam renascer. Lutar por tais metas deve permear todas a iniciativas de qualquer país que queira ajudar o Haiti.
O triste é a iminência de virarmos a página do terremoto relegando o Haiti ao limbo. Afinal, trata-se de um país sem importância, não oferece perigo a ninguém. O mundo pode voltar à vidinha de sempre. Até a próxima tragédia.
Os haitianos sabem disso. Outros países cujo povo é vítima da miséria e da violência também sabem que estão em segundo plano. Só difere se for algum aliado. Então, vale fazer a política de conveniência. Legitima-se até a ditadura.
Como a esperança é caracterizada pela resistência, que a civilidade fale alto ( completamente oposta a voz burra que reduz o discurso à vilania imperialista), e a História conte outra realidade.
2 de Julho de 2009
O bom jornalismo
Com um rol de acusações, que parece infindável, sobre a cabeça, o senador José Sarney elegeu um novo culpado, porém, tradicional nessas horas – a imprensa. Este setor da sociedade, segundo ele, trama uma “campanha midiática” . O motivo de tamanha perseguição seria o apoio do veterano senador ao presidente Lula.
Honduras acaba de sofrer um golpe de estado. O presidente deposto Manuel Zelaya ( seguidor de Hugo Chaves) queria a reeleição, planejava um plebiscito à revelia do Congresso e da justiça. Em vez de usarem os meios legais para barrar as pretensões de Zelaya, como anular o resultado do plebiscito e processá-lo, destituíram-no do cargo sumariamente – um crime contra a democracia. E qual foi uma das primeiras medidas dos golpistas? Óbvio, silenciar a imprensa, um vilão que livre deporia contra os “interesses do povo”.
No Irã, muito descontentamento por causa do resultado das eleições que deu vitória ao atual presidente Mahmoud Ahmadinejad. Acusam-no de fraudar as eleições. Manifestações seguem em solo iraniano, repreendidas violentamente pelo governo de Teerã. E a imprensa? A local devidamente controlada, a estrangeira a sofrer retaliações por tentar cobrir o movimento dos insurgentes.
Três casos recentes de violência contra a informação, mas recorrentes na história da humanidade. Quando do outro lado da rua, a imprensa é veneno. No lado certo, devidamente manipulada e manipuladora, é arma certeira e indolor (aparentemente). Isso para os déspotas.
Pois para quem bebe da democracia, imprensa livre é sinônimo de liberdade de expressão. O bom jornalismo informa e analisa os fatos, é o aliado do cidadão para fiscalizar as autoridades, destes exigindo transparência e discernimento, oferece à sociedade a oportunidade de expressar seus anseios. O cartão de visita do verdadeiro jornalista é a convergência de credibilidade e independência – passa longe do constrangedor figurino garoto-propaganda tão em evidência atualmente.
Não obstante todo o tipo de violência contra a liberdade de expressão à qual assistimos diariamente, novas tecnologias, como a Internet, têm driblado a intransigência de autoridades ( mesmo daqueles países mais fechados) e dado voz aos insurgentes, trazem à tona a dor das vítimas de déspotas. É nesse mundo paralelo de informações que resiste a esperança de um mundo melhor, um mundo livre.
1 de Junho de 2009
Democracia na veia
Estados Unidos e União Européia já arvoram planos de regulação dos derivativos (títulos cujo preço é determinado pelo comportamento futuro de outros mercados) e de vigilância sobre os bancos. É o que se espera como grande lição da crise econômica. Uma maior regulação do mercado tornou-se inevitável.
Entretanto, diante do jogo pesado do capitalismo, aparece a dúvida sobre a lisura das regras. Estas devem refletir o equilíbrio de interesses de todos os envolvidos – do mercado ao consumidor, do empreendedor ao pequeno investidor, do grande empresário ao trabalhador. Para tanto, só há uma bandeira capaz de abarcar todos os interesses e garantir regras justas – a democracia.
Democracia, palavra que precisa estar cada vez mais na veia de todo e qualquer cidadão que preze por sua liberdade. É ela que permite a sociedade escolher os representantes que devem defender seus interesses. É no seio da democracia que a justiça é verdadeira. É a democracia que legitima a liberdade de expressão.
E liberdade de expressão significa não só expor ideias e ideais, mas o direito de de exigir discernimento dos que nos representam quando da tomada de decisões e de todos que compõe a sociedade.
25 de Maio de 2009
O capitalismo na berlinda
A crise econômica que domina o mundo suscita discussões acerbas sobre o destino do capitalismo. Seus críticos arvoram todos os seus defeitos, os mais açodados acreditam no fim da era capitalista. Os apologistas empedernidos da economia de mercado ignoram as falhas do sistema, os defensores mais sensatos falam em maior regulação do mercado.
A busca incessante pelo lucro é marca indelével e excruciante do capitalismo. Sem limites, o mercado atropela a ética, não enxerga natureza social, leva o individualismo ao extremo. Mas tal sistema econômico é único capaz de produzir riqueza, investimentos, garantir emprego ao cidadão. Mercado ativo sempre é sinal de demanda por postos de trabalhos. Trabalhador qualificado sempre terá espaço. A despeito de sua visão em prol do lucro sem restrições, o capitalismo é o grande responsável pelos grandes avanços da humanidade.
Engana-se quem acredita que o Estado seja capaz de atender todas as necessidades do cidadão. Este precisa de educação e emprego, aquele tem obrigação de oferecer escola de qualidade, mas é limitado para oferecer mão-de-obra porque não produz. E nem deve. Seu papel é gerenciar os recursos auferidos pelos impostos, transformando todo esse capital em educação, saúde, infraestrutura.
O socialismo, tão defendido pelos críticos do capitalismo, já demonstrou suas fraquezas na antiga União Soviética e na China. Na primeira, a mão de ferro dos seus lídere autoritários é que lhe denotava “grandeza”. Na realidade sua economia era frágil, não resistiu à falta de iniciativa privada. O Estado, dono dos meios de produção, era desprovido de condições para modernizar suas empresas. O resultado foi um aluvião de empresas sucateadas. Na terra de Mao Tse-tung, a inépcia do Estado em conduzir a economia também foi patente. A diferença é que a partir da administração do presidente Deng Xiaoping, a China se preparou para mergulhar na economia de mercado. O ruim foi que seu autoritarismo não arrefeceu, transformando aquele país numa aberração econômica – o pior do capitalismo com o caráter ditatorial do socialismo.
E como barrar a face voraz do capitalismo e poder desfrutar da sua extraordinária capacidade de produzir bens e avanços?
Regras é a resposta. Sociedade sem regras que definam limites não sabe ser justa. Em nome de sua ambição, o ser humano é capaz de ignorar o mal que possa causar a outros, a sociedade amparada em regras pode redimi-lo. O mercado desconhece a fronteira entre o certo e o errado, regras que freiem a cegueira capitalista também podem redimi-lo.
O Estado deve viabilizar a regulação do mercado. O interesse público o credencia para isso. Mas sua relação com o mercado precisa ser de equílibrio, não pode haver ascendência de um sobre o outro. Estado não produz, ele garante infraestrutura a quem o faz e protege o interesse público. O mercado produz, ele tem a obrigação de levar as palavras responsabilidade e gestão mais a sério, esquecer a enfermaria do poder público.
Não é facil domar a sanha capitalista. Todavia, um bom começo é o empresário e o cidadão comum mudarem a visão paternalista que alimentam do Estado. Ao empresário, cabe ao poder público criar condições justas para produzir. E ao cidadão comum, oferecer educação e saúde .
28 de Abril de 2009
Conflito israelo-palestino e o segredo do poder
Lideranças ultraconservadoras de Israel não aceitam ceder aos palestinos. O grupo terrorista Hamas, vitorioso nas últimas eleições palestinas, brada o mesmo discurso. Resultado da contenda: milhares de vidas ceifadas pelos ataques da organização palestina e pelo revide não menos impiedoso de Israel. Ambos assumem a carnificina, como meio de se defender e manter a soberania do seu povo. O culpado é outro lado.
Mas não há culpados. Não há inocentes. Há dois povos incessantemente manipulados. A luta pelo poder movimenta as peças do xadrez do oriente médio.
É claro que o temor e a necessidade de se defender dos judeus são compreensíveis. Ninguém pode ignorar o hecatombe que foi o Holocausto. Támbem é legítimo o desejo dos palestinos de possuir seu território. A criação do Estado palestino é uma necessidade premente e justa assim como foi o de Israel no final da segunda guerra mundial. Não se pode ignorar esses árabes ou tentar aninhá-los em qualquer outro país daquela região ( já basta o erro de Winston Churchil , ex-premier britânico, quando numa canetada resolveu reunir à força etnias tão diversas sob a bandeira do Iraque).
Mas as razões de cada parte é apenas nota de rodapé num discurso alinhavado( de ambas a s partes) para alimentar o ódio e o temor. E assim lideres interessados no poder estufam o peito e bradam: eles são o mal, nós a solução.
É o mesmo expediente usado pelos aitolás no Irã, pelos terroristas do Al Qaeda, por Fidel Castro, Hugo Chaves e seus seguidores na América do Sul, pelos Estados Unidos em diversas situações e por todos os ditadores.
A solução para palestinos e judeus está na idéia de aceitar as diferenças. Há quem ache isso utópico, discurso bom no papel e ótimo para declarações politicamente corretas. Mas é o caminho a ser seguido. E assim rechaçar lideranças obtusas que se perpetuam cultivando o temor, o ódio, a indiferença.
Caminho que o maestro Daniel Barenboim, argentino, ascendência judaica, percorre com a West-Eastern Divan Orchestra. Uma parceria de Barenboim com o intelectual palestino Edward Said, a orquestra reune jovens músicos árabes e judeus. Diferenças lado a lado convergindo para o espetáculo da música clássica.
20 de Janeiro de 2009
Barack Obama
Hoje, quando assumir a presidência dos Estados Unidos, Barack Obama será a certeza de que valeu a pena a coragem de Rosa Parks (1913-2005) e a determinação de Martin Luther King (1929-1968).
Obama é a resposta de um país sempre inexoralvemente criticado a quem duvida do poder da democracia. Os Estados Unidos, tão associados à arrogância, à exploração, ao abuso de poder, mentores do capitalismo selvagem, mostram que são capazes de se reinventarem- basta-lhes a democracia.
Não, a maior potência do mundo não se torna inocente com a posse de Obama. Seus erros a História já registrou e ainda nos mostrará mais. Todavia, o mundo precisa parar de atribuir seus erros e fracassos ao “nefasto imperialismo americano”. A culpa exclusiva e irrestrita que recai sobre os Estados Unidos é o embuste que assegura e aumenta o poder de líderes déspotas , mascara a incapacidade de outros e vira arrazoado de quem não consegue reconhecer as suas próprias falhas ( é tão mais fácil atribuir a culpa de nossos insucessos a quem é vencedor. Sartre já dizia “o inferno são os outros”).
Isso vale para uma certa república tropical de tanto potencial, mas que seu povo precisa entender que é responsável intrinsicamente pelas mazelas que o acometem. E, sobretudo, que podemos mudar.
Como dizia Obama em sua campanha: Yes, we can…