29 29UTC Dezembro 29UTC 2011

Os trampolins da imaginação

Publicado em Ler faz crescer às 08:46 por sidneif

Por ANA CARLA FONSECA*

Dizem que o período mágico da vida de uma criança dura até os sete anos. Não sei se isso se deve ao certo por razões místicas ou simplesmente por coincidir com a fase de um currículo escolar que rompe com a imaginação e abraça a repetição. Diante desse engessamento do sistema educacional, a necessidade de encontrar formas alternativas para atiçar a curiosidade, a criatividade e o pensamento lateral é ainda mais presente.

Eu tive a sorte de ser criada em meio a uma família composta por eternas crianças com menos de sete anos. Tudo era folia, tudo era possível. Com um pingo de imaginação, a ponta do pão se transformava em uma casquinha de sorvete (adoro pontas de pão até hoje) e o cotonete era uma chave para o portão do zoológico que vivia nas minhas orelhas. O mundo era flexível, possível, informatável. Nada mais coerente, portanto, do que viver cercada por livros. O Gato de Botas pulava das páginas para brincar com o Saci, Monteiro Lobato namorava Cinderela, Branca de Neve fazia longos passeios com Júlio Verne pela Terra do Nunca. Para não falar dos dicionários, esses precursores dos hyperlinks mentais e arautos da física quântica, que escancaravam portas de mundos possíveis e me mantinham acordada após as 22h, à luz do abajur, na ilusão de que minha mãe não percebesse que já não era mais hora de criança estar acordada. Os livros, essas antecâmaras de sonhos povoados de aventuras e personagens camaleônicos, habitavam minhas noites tanto quanto meus dias.

Diante deste nosso mundo, que se faz duramente real cada vez mais cedo, não só é difícil encontrar adultos crianças, como as as crianças são levadas a agir, pensar e sentir como miniadultas. É por isso que o universo dos livros – e as galáxias que cada um deles descortina – passa a ser imprescindível. Os livros são verdadeiros trampolins da imaginação. Cada letra é um degrau, cada palavra catapulta os pensamentos em saltos triplos. Em um momento no qual “criatividade” virou mantra dos adultos, podemos reaprender com os livros a ser crianças.

*Ana Carla Fonseca, economista, administradora, doutora em Urbanismo, especialista em economia criativa e diretora da consultoria Garimpo de soluções.

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